9 de jun de 2010

Eu... e mais 20 em Pedro II: a missão. Parte I


As narrativas de viagem às vezes são mais esclarecedoras que notícias e reportagens. Por isso, dessa vez é em forma de diário que você conhece um pouco mais sobre o Festival de Pedro II.
Dia 2 de maio: Quarta-feira
            Essa ainda é a véspera da viagem e arrumar as malas já me parece cada vez mais difícil do que eu pensei. Além de não conseguir achar nada do que eu preciso (de roupas a sacos plásticos) na minha própria casa, descobri que viajar nos trópicos é bem mais complicado do que por outros lugares de climas mais amenos. É preciso multiplicar por 2, as vezes 3, a quantidade de coisas à se levar. Última vez que eu tive uma mala tão cheia, viajei por 20 dias e por 5 países diferentes, bem mais uma só cidade por meia semana.

 

Dia 3 de maio: Quinta-feira

Depois de passar a manhã inteira terminando a missão impossível de deixar tudo pronto até a hora da partida, finalmente meu grupo de viagem tocou a campainha de casa: somos cinco, dois homens e três mulheres, incluindo nosso corajoso motorista com dois anos de carteira e três batidas no currículo, será que chegaremos vivos até a charmosa, e não tão fria assim, serra piauiense?
Apesar de tudo a viagem é tranqüila, e quando entramos na cidade a sensação é engraçada: todos se viram pra encarar cada novo carro que passa lotado de turistas. Algumas crianças acenam e eu me sinto num daqueles filmes de antropólogo, com indiozinhos sorrindo e correndo pra ver os helicópteros de filmagem no céu. Por sinal, é interessante como a maioria dos pedrosegundenses sempre parece falar com você usando uma expressão de interesse e felicidade contida, como se eles tivessem extremamente felizes de estar recebendo, e bem, tanta gente de outros lugares. Gosto disso.
Depois de uns 10 minutos, ainda, não conseguimos encontrar o caminho da nossa casa e começamos a ficar preocupados com a distância que iríamos ter de caminhar pra chegar até a praça centro das atrações musicais do festival. Paramos na rodoviária para pedir informação e rapidamente 5 idosos lançaram-se em direção ao nosso carro gritando instruções desconexas, “Obrigado, obrigado, umrrum...”, falava o motorista enquanto fingia entendimento para não encompridar a conversa, até que o animado grupo, que jogava damas antes nossa chegada, se deu por satisfeito com a ajuda e retornou ao tabuleiro. Partimos de novo. “Nossa gente, to impressionado, puta galera solícita hein?”, comentei. Continuamos perdidos.
Finalmente achamos a casa por nós mesmos e fomos recebidos por um grupo de cinco pessoas já instaladas (iríamos ser 20 nas próximas horas). Depois de uns trinta minutos comentando o quanto a casa era maior e melhor do que imaginávamos, alguém teve a brilhante idéia de desencavar uma garrafa de vodka do fundo da geladeira. Adoro primeiro dia de viagem. A animação antecipada nos levou a um estado etílico interessante já antes da festa que naquela noite iria ser comandada por Fernanda Takai.
Quando chegamos na praça fomos recebidos pelo espetáculo “Ensaio Vocal canta Chico Buarque”. “Incrível como esse grupo é competente, tudo que eles fazem fica extremamente bem arranjado e executado, pena que quase nunca chega a realmente contagiar. Impossível não notar como o festival de inverno é elitizado né?”, considerou uma das pessoas da casa a qual eu ainda não sabia o nome. Mas realmente ao se parar para observar o efeito era como um tapa na cara: para todos os lados que se olhava, era possível ver cópias exatas da Ana Maria Braga junto dos seus maridos de barriguinha próspera e a indefectível garrafa de uísque 12 anos empoleirada em cima das mesas (50 reais a unidade).
As 23:00h o conhecido apresentador César (Fire) Filho anuncia a atração principal da noite. Fernanda takai entra no palco e simplesmente vai contagiando-nos um a um com seu jeitinho tímido. Apesar dos modos contidos, era impossível não notar o quanto ela estava gostando do clima do show e da resposta do público. Nesse espetáculo que teve como chefe a interpretação, pela Fernanda, de músicas da Nara leão, a cantora sorriu, dançou e usou super bem o grupo que a acompanha, que, ela sabe, é de uma qualidade tremenda. Destaque para a baterista Mariá Portugal, sobre a qual eu tinha sido muito bem alertado antes de deixar Teresina: “Ela é linda Filipe, e toca bem, 10 reais se você conseguir tirar o olho dela durante o show”, disse-me meu nobre amigo e editor desse blog, Caio Bruno. Não consegui.
Takai cantou Nara, Chico, e encerrou o show depois de uma hora e dez minutos de suave encantamento. Então, acabaram-se as coisas na praça... hora de ir dormir? Lógico que não. O movimento de contato entre os diferentes grupos na meia hora após o show é sempre intensíssimo, todos procurando algum lugar que satisfaça a equação casa perto da praça + cheia de gente + cheia de álcool = diversão noturna. E sinceramente não é muito difícil encontrar um bom resultado com poucos minutos de conversa, muitos acabam indo pra casas as quais nem se sabe direito aonde são, ou quem vai estar lá. Não estamos tão aventureiros e terminamos optando pela nossa própria residência.
 
Dia 4 de maio: Sexta-feira

Acordei. São 10:30 da manhã e eu ainda estou bêbado (havia ido dormir às 07:00 agarrado a uma garrafa vazia). Olho ao redor e vejo outras 6 pessoas ainda com roupas de festa largadas pelos cantos do quarto 4x3 que estávamos ocupando. Levantar nunca me pareceu tão difícil, pena que os outros integrantes da casa já estavam acordados escutando Lady Gaga a toda altura. Fomos despertando um a um e em meio a exclamações mal criadas contra o barulho e resmungos de sede; desistimos de dormir, e fomos para a sala.
Encontramos o restante da casa fazendo o almoço (o que rapidamente serviu de salvo-conduto quanto a escutar batidão antes do meio dia) fomos ajudar, e, contrariando a promessa feita por todos de só ingerir álcool depois do pôr do sol, todos comemos com um copo de hi-fi na mão. Ás quatro da tarde já éramos responsáveis por um barulho infernal e nas portas de todas as casas da nossa rua, idosos sentados em cadeiras de espaguete nos olhavam com expressões sorridentes, como se a região esperasse o ano todo por aquele tipo de movimentação.
Ao anoitecer começou, mais uma vez, o entra e sai nos banheiros cada vez mais encharcados, a movimentação de pessoas semi-vestidas e o cheiro de diferentes perfumes pela casa, típicos de um grande grupo se arrumando para uma grande festa.
A expectativa dessa noite era bem maior que para a primeira (e seria a maior de todo o festival) já que a atração principal do dia era nada mais nada menos que Zeca Baleiro, de longe o mais “agitado” dos artistas nacionais a se apresentarem na capital da opala.
Depois de umas duas horas, considerando que éramos 20 divididos quase que igualmente entre homens e mulheres, estávamos prontos e indo a pé mais uma vez para o centro da cidade, fazendo barulho por onde passávamos e, as vezes,  causando sorrisos chocados nos transeuntes com nossas piadas (quase nunca leves) ditas a plenos pulmões.
Já na praça o primeiro show da noite foi da banda brasiliense Brazilian Blues Band, que sinceramente não teve nada de blues pra mim, me soou parecida com aquelas bandas chatas de pop rock daqui de Teresina, que ficam tocando Barão Vermelho e Lulu Santos a torto e a direito, nessas boates que a galera insiste em chamar de “pubs”, e de repente tem a péssima idéia de “fazer um trabalho autoral” chato, e dispensável. Teria sido muito mais proveitoso chamar uma banda local para o dia.
Ainda bem, as cervejas fizeram a apresentação ser rápida, e por volta das 23:00, mais uma vez, a atração principal subiu ao palco. O efeito da presença do Zeca foi exatamente o esperado: o cantor, ainda na turnê do seu ultimo cd “O coração do homem bomba” fez todo o público dançar sem parar por quase 1:30h de show. Nem a chuva, que caiu por quase toda a noite foi o suficiente para arrefecer os ânimos dos que entoavam sucessos com “Lenha” e “Babylon”. Simplesmente não consegui parar de me mexer.
Ao final do show estava tão alcoolizado que comecei a andar a esmo falando com desconhecidos, graças a deus eles também estavam e me responderam, fiz várias novas amizades até que a frase “Gente, vamos pra casa, tô transtornada”, e uma puxada de braço fizeram com que meus companheiros me arrastassem pra nossa morada. Separei-me da estranha com a qual eu dançava forró freneticamente em frente a um dos botecos sujos das cercanias, e me resignei a voltar.

 Fonte: Site cabeça de cuia



Por: Filipe Poty

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